Ao observar a movimentação do ambiente empresarial nos dias atuais, ao menos no Brasil, sou frequentemente remetido a uma experiência vivida no final da década de 1990.
Na ocasião, recebi o convite para participar de um almoço entre empresários. O ambiente era cuidadosamente preparado: recepção calorosa, discursos entusiasmados e uma clara preocupação em demonstrar sucesso por meio da postura, da retórica e da ostentação. Em cada conversa, percebia-se uma ânsia quase competitiva por narrar conquistas materiais e trajetórias supostamente vitoriosas.
Antes do almoço, houve uma palestra bastante animada, repleta de recursos tecnológicos avançados para a época. Do ponto de vista da neurolinguística, tudo era meticulosamente estruturado. Os discursos inflamados reforçavam, de forma recorrente, a ideia de que aquele era um ambiente extremamente próspero, despertando nos presentes um desejo imediato de pertencimento.
Em determinado momento, era apresentado o projeto, o pitch, como se diz hoje. Tratava-se de algo então conhecido como “pirâmide”, mas suavemente apresentado sob o nome de “clube”.
A proposta consistia em tornar-se membro por meio da aquisição de uma jóia. O valor pago era distribuído entre o clube, o convidador, o anfitrião e assim sucessivamente. A única exigência imposta aos novos associados era simples e simbólica: demonstrar, de forma visível, que haviam “mudado de vida”.
Os participantes eram constantemente estimulados a frequentar ambientes luxuosos, viver experiências consideradas épicas, adquirir bens caros e, literalmente, ostentar. Cheguei a ouvir, inclusive, a sugestão de que aqueles que não possuíssem crédito suficiente para comprar um carro importado simplesmente o alugassem. O importante não era ser, mas parecer.
Essa experiência antiga guarda enorme semelhança com o que hoje se observa, sobretudo no ambiente do chamado empreendedorismo digital.
Pessoas passam a vender a imagem do que ainda não são, na esperança de se tornarem algo no futuro. Não constroem de forma gradual, sólida e consistente. Tampouco recorrem à inovação genuína, à coragem real ou ao risco assumido que caracterizam o verdadeiro empreendedorismo.
Optam, mais uma vez, por aquilo que chamo de “terceira via”: o atalho.
Para compreender melhor essa distorção, é importante distinguir os caminhos legítimos existentes nos negócios.
A primeira via é a do empresário construtor. Aquele que cresce passo a passo, com disciplina, planejamento e controle de riscos. Trata-se de um perfil que protege o que já existe, busca estabilidade, otimiza processos e constrói um legado ao longo do tempo. É uma via legítima, necessária e fundamental para a economia.
A segunda via é a do empreendedor em sua essência mais pura. O indivíduo fora da curva, que assume riscos reais, queima os barcos e aposta tudo: tempo, reputação, recursos e vida naquilo em que acredita. Ele não entra no jogo com garantias. Age antes das provas, não por imprudência, mas por convicção. Não desiste enquanto ainda existir a possibilidade de fazer dar certo.
Ambas as vias, embora distintas, têm algo em comum: ambas constroem. Com ritmos diferentes, estratégias distintas, mas sempre com base real.
A terceira via, por outro lado, tenta imitar os resultados sem aceitar o processo. É a busca econômica no pior sentido do termo. Uma tentativa preguiçosa de pular etapas, de substituir estrutura por narrativa, trabalho por encenação e consistência por imagem.
Assim como ocorreu na bolha imobiliária dos Estados Unidos em 2008, tudo aquilo que é erguido sem alicerce sólido tende a não se sustentar ao longo do tempo. Crescimentos artificiais podem até impressionar no curto prazo, mas carregam em si a fragilidade de quem depende permanentemente da próxima onda.
A exceção está naquele indivíduo que, ao perceber que a onda que o levou a um novo patamar pode desaparecer da noite para o dia, decide mudar o próprio jogo. Reconhece a ilusão, abandona a encenação e passa a construir de fato.
O verdadeiro empreendedor, e também o empresário sólido, compreende que prosperidade não se encena. Prosperidade se constrói.
Quem aposta na imagem antes da estrutura pode até chegar rápido, mas dificilmente permanece.
No fim, o tempo. Sempre ele, implacável.
Separa quem vive de narrativas de quem construiu algo real.

Max Katsuragawa Neumann
Empresário e Empreendedor | Representante do CRA-SP | Autor de Superando Desafios – Empreendendo no Brasil