Livro “Conectados, Ansiosos e Vazios”, de Milton Rodrigues, propõe uma reflexão sobre os efeitos da hiperconexão em nossas emoções, relacionamentos e maneira de viver

Nunca tivemos tantas possibilidades de encontrar pessoas, conversar, compartilhar experiências e acompanhar o que acontece no mundo. Carregamos no bolso dispositivos capazes de nos conectar instantaneamente a familiares, amigos, colegas de trabalho e desconhecidos separados por milhares de quilômetros. Paradoxalmente, em uma sociedade tecnologicamente conectada como nenhuma outra geração experimentou, solidão, ansiedade e sensação de vazio tornaram-se temas cada vez mais presentes nas conversas sobre a vida contemporânea.

É desse aparente paradoxo que nasce “Conectados, Ansiosos e Vazios”, livro de Milton Rodrigues, publicado pela Avvio Books. A obra convida o leitor a refletir sobre a maneira como a hiperconexão vem transformando não apenas nossos hábitos, mas também a qualidade de nossas relações, nossa percepção sobre nós mesmos e a forma como experimentamos o tempo, o silêncio, a presença e a convivência.

O fenômeno alcançou dimensões que ultrapassam a percepção individual. Relatório publicado em 2025 pela Organização Mundial da Saúde estimou que aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo experimenta solidão, condição que atravessa diferentes faixas etárias e regiões. No Brasil, dados do relatório Digital 2025 apontaram 183 milhões de usuários de internet e cerca de 144 milhões de identidades de usuários de redes sociais no início daquele ano, dimensão que revela o quanto a vida digital já está incorporada ao cotidiano da população.

A questão levantada pelo livro, entretanto, não é se a tecnologia é boa ou ruim. A tecnologia aproximou pessoas, democratizou o conhecimento, criou novas possibilidades profissionais, encurtou distâncias e permitiu formas de relacionamento inimagináveis poucas décadas atrás. O problema começa quando estar conectado deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar espaços que anteriormente pertenciam ao encontro, à conversa, ao descanso, à contemplação e até mesmo à capacidade de permanecer alguns minutos em silêncio.

“Não precisamos abandonar a tecnologia. Precisamos reaprender a estabelecer nossa relação com ela”, afirma Milton Rodrigues. Para o autor, a pergunta mais importante não é quantas pessoas conseguimos alcançar por meio das redes, mas quantas relações verdadeiramente significativas estamos conseguindo construir e preservar.

“Podemos conversar com centenas de pessoas durante um único dia e, ainda assim, terminar esse mesmo dia com a sensação de que não fomos verdadeiramente encontrados por ninguém.”

Quando conexão não significa presença

Uma das reflexões centrais de “Conectados, Ansiosos e Vazios” está justamente na diferença entre conexão e presença. Uma mensagem pode ser enviada em segundos, uma fotografia pode alcançar centenas de pessoas e uma publicação pode receber inúmeras manifestações de aprovação. Nada disso, entretanto, garante necessariamente intimidade, pertencimento ou profundidade emocional.

As próprias pesquisas sobre comportamento digital mostram que a relação entre redes sociais e bem-estar é mais complexa do que simplesmente considerar a tecnologia uma inimiga. Há benefícios evidentes nas interações digitais, inclusive na possibilidade de encontrar comunidades, apoio e pessoas com experiências semelhantes. Ao mesmo tempo, estudos têm investigado como determinados padrões de uso podem se relacionar a ansiedade, comparação social, medo de ficar de fora e solidão.

O livro procura justamente escapar das respostas simplistas. Em vez de defender uma espécie de retorno impossível a um mundo sem telas, propõe uma reflexão sobre escolhas conscientes. A tecnologia continuará presente e provavelmente ocupará espaços ainda maiores na vida humana; por isso, aprender a utilizá-la sem permitir que ela determine completamente nossos comportamentos talvez seja uma das competências mais importantes deste século.

A vida transformada em vitrine

Outro aspecto abordado por Milton Cesar Rodrigues é a transformação progressiva da experiência pessoal em exposição pública. Viagens, refeições, conquistas profissionais, relacionamentos e até momentos de intimidade podem se converter rapidamente em conteúdo. Aos poucos, surge uma pergunta desconfortável: estamos vivendo determinadas experiências ou começamos a vivê-las também pela possibilidade de mostrá-las?

Nesse ambiente, a comparação encontra terreno fértil. O cotidiano real de uma pessoa passa a ser comparado com a seleção dos melhores momentos da vida de centenas de outras. Carreiras parecem mais bem-sucedidas, relacionamentos mais felizes, viagens mais interessantes e vidas aparentemente mais completas. O resultado pode ser uma sensação permanente de insuficiência diante de uma realidade digital cuidadosamente selecionada.

Para o autor, recuperar a capacidade de distinguir visibilidade de valor torna-se fundamental.

“Nem tudo aquilo que possui valor precisa ser mostrado. Existem experiências que se tornam importantes justamente porque pertencem às pessoas que as viveram e não porque foram vistas por centenas ou milhares de seguidores.”

Um livro sobre tecnologia, mas principalmente sobre pessoas

Embora parta da hiperconexão, “Conectados, Ansiosos e Vazios” é essencialmente um livro sobre relações humanas. A tecnologia funciona como cenário para questões muito anteriores aos smartphones: necessidade de pertencimento, reconhecimento, afeto, identidade, amizade, escuta e significado.

Milton Rodrigues construiu sua trajetória profissional ao longo de mais de quatro décadas trabalhando diretamente com pessoas, carreiras e organizações. Headhunter, escritor e fundador da Avvio, acompanhou milhares de profissionais em diferentes momentos de suas trajetórias e passou a dedicar parte de sua produção literária à reflexão sobre comportamento humano, carreira, relações, escolhas e transformações da sociedade.

Essa experiência aparece no livro não como uma tentativa de oferecer fórmulas prontas, mas como ponto de partida para perguntas que cada leitor precisa responder. Quanto tempo conseguimos permanecer sem verificar o celular? Quantas conversas são interrompidas por notificações? Quando foi a última vez que estivemos integralmente presentes diante de alguém? E por que, mesmo cercados por tantos canais de comunicação, tantas pessoas continuam procurando um lugar onde possam simplesmente ser ouvidas?

Reconectar-se pode ser o próximo passo

O desafio proposto por “Conectados, Ansiosos e Vazios” não é desconectar-se do mundo. É descobrir como permanecer conectado sem perder a capacidade de estar presente nele. Significa recuperar espaços para conversas sem interrupções, relacionamentos que não dependam de exposição pública e momentos em que o silêncio não precise ser imediatamente preenchido por uma tela.

Em uma época na qual quase tudo disputa nossa atenção, escolher conscientemente onde colocá-la tornou-se também uma maneira de escolher a vida que queremos construir. Talvez a pergunta decisiva já não seja se estamos conectados. Os números demonstram que estamos.

A pergunta que permanece é muito mais humana: a que e, principalmente, a quem estamos verdadeiramente conectados?

“Conectados, Ansiosos e Vazios”, de Milton Rodrigues, está disponível para aquisição pela UICLAP. A obra integra o catálogo da Avvio Books e propõe ao leitor uma reflexão necessária sobre hiperconexão, ansiedade, relações humanas e a busca por uma vida digital que não nos afaste daquilo que nos torna verdadeiramente humanos.

SERVIÇO

Livro: Conectados, Ansiosos e Vazios

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