O Brasil enfrenta um avanço significativo na presença de moluscos não nativos, um fenômeno que preocupa pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e à saúde pública. Um levantamento nacional revelou que o número de espécies exóticas registradas no país saltou de 26 para 82 em apenas 15 anos, representando um crescimento de 215%.
O inventário, considerado o primeiro estudo nacional dedicado a catalogar esses organismos, mostra que, entre as espécies identificadas, 20 são classificadas como invasoras, ou seja, possuem potencial para provocar prejuízos à biodiversidade, afetar atividades econômicas e oferecer riscos à população.
Além das espécies já confirmadas, os pesquisadores identificaram outras 13 classificadas como criptogênicas. Nesses casos, ainda não foi possível determinar com precisão se os organismos são nativos ou introduzidos, devido à escassez de registros históricos e de informações científicas consistentes.
Segundo os responsáveis pelo estudo, muitas dessas espécies ainda são pouco conhecidas, o que dificulta a avaliação completa dos seus impactos e o desenvolvimento de estratégias eficazes para monitoramento e controle.
Para organizar o levantamento, todas as espécies foram classificadas conforme critérios estabelecidos pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e também pela Classificação de Impacto Ambiental para Táxons Exóticos, metodologia internacional utilizada para medir os efeitos causados por organismos introduzidos em novos ambientes.
A pesquisa foi coordenada por especialistas do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em colaboração com pesquisadores de diversas instituições brasileiras. O trabalho representa um importante avanço para o conhecimento da fauna exótica presente no território nacional e oferece uma base científica para futuras políticas de prevenção e manejo.
Entre os casos mais conhecidos está o mexilhão-dourado, espécie que se espalhou rapidamente por rios brasileiros e se tornou um dos principais desafios para o setor de energia. O animal adere às estruturas hidráulicas, provocando entupimentos em tubulações e equipamentos, reduzindo a eficiência operacional de usinas hidrelétricas e elevando os custos de manutenção.
Outro exemplo é o caramujo-africano, amplamente disseminado em áreas urbanas e rurais. Além de causar prejuízos à agricultura ao consumir diversas culturas, a espécie também desperta preocupação sanitária por poder servir de hospedeiro para parasitas responsáveis por doenças graves que afetam seres humanos.
Os especialistas alertam que a introdução de espécies exóticas ocorre por diferentes caminhos, como o transporte marítimo, o comércio internacional, atividades agrícolas e até mesmo pela liberação inadequada de animais e organismos na natureza. Uma vez estabelecidas, muitas dessas espécies encontram condições favoráveis para se reproduzir rapidamente, competindo com organismos nativos e alterando o equilíbrio dos ecossistemas.
O crescimento expressivo registrado pelo inventário reforça a necessidade de ampliar ações de fiscalização, monitoramento ambiental e conscientização da população. Para os pesquisadores, prevenir a chegada de novas espécies invasoras continua sendo a estratégia mais eficiente e menos onerosa do que tentar controlar organismos que já se encontram amplamente distribuídos pelo país.
O estudo também evidencia a importância do investimento contínuo em pesquisas científicas, permitindo compreender melhor a distribuição dessas espécies e desenvolver medidas capazes de reduzir seus impactos sobre a biodiversidade, a economia e a saúde pública brasileira.