A organização do Carnaval de Rua de São Paulo deste ano apresenta um cenário contraditório: embora a infraestrutura disponível para os foliões tenha sido reduzida em comparação com o ano anterior, o volume total de gastos públicos não sofreu diminuição significativa e continua elevado. Levantamentos apontam que, mesmo com menos equipamentos e serviços visíveis nas ruas, os custos gerais do evento ultrapassam R$ 65 milhões.
Um dos exemplos mais evidentes dessa redução está na quantidade de banheiros químicos disponibilizados para os blocos e foliões. A diminuição prevista no planejamento é de aproximadamente 37%, número que, na prática, foi ainda mais perceptível durante o período do pré-Carnaval. Apesar da redução de estrutura, os gastos totais do evento mantiveram patamar semelhante ao registrado anteriormente, levantando questionamentos sobre a distribuição e a composição das despesas.
A divergência entre os números oficiais anunciados e os valores efetivamente empenhados decorre de mudanças na forma de contratação dos serviços. Inicialmente, a administração municipal informou que toda a infraestrutura do Carnaval de Rua seria financiada por patrocinadores privados, que contribuiriam com cerca de R$ 29 milhões. Entretanto, a estrutura contratual foi alterada, e parte dos serviços tradicionalmente incluídos no pacote principal passou a ser contratada separadamente, com recursos públicos adicionais.
No modelo anterior, um único contrato reunia diferentes itens essenciais à realização do evento, como banheiros químicos, gradis de contenção, tapumes, agentes de apoio ao trânsito, sinalização viária e serviços de orientação turística. Neste ano, esses itens foram desmembrados em contratos distintos, o que manteve o volume de recursos públicos destinados à organização do Carnaval em níveis próximos aos do ano passado, quando a prefeitura repassou mais de R$ 42 milhões para a empresa municipal responsável pela execução dos serviços.
Com a nova estrutura de contratos, despesas relacionadas à sinalização de trânsito, apoio operacional e serviços turísticos passaram a ser custeadas separadamente. Somente o contrato destinado à sinalização viária e ao pagamento de horas extras de agentes de trânsito soma quase R$ 4 milhões, valor considerado insuficiente por técnicos responsáveis pela operação do sistema de mobilidade urbana durante o período festivo. Já os gastos com serviços de guias bilíngues apresentaram aumento expressivo, passando de cerca de R$ 1 milhão para aproximadamente R$ 8,7 milhões.
A reorganização das despesas, aliada à redução de equipamentos visíveis nas ruas, tem gerado críticas de especialistas em gestão pública e de organizadores de blocos carnavalescos, que temem impactos na qualidade do atendimento aos foliões e na logística do evento. A diminuição de estruturas como sanitários e áreas de contenção, associada ao aumento do público esperado, pode representar desafios adicionais para a operação e para a segurança do Carnaval de Rua.
Mesmo diante das críticas, a prefeitura sustenta que a reorganização contratual busca ampliar a eficiência administrativa e permitir maior participação de recursos privados no financiamento do evento. Ainda assim, a diferença entre o volume de infraestrutura disponível e o valor total investido mantém o debate sobre a transparência e a eficácia dos gastos públicos relacionados à maior festa popular da cidade.
Com expectativa de grande participação popular, a realização do Carnaval de Rua deste ano coloca à prova a capacidade de organização logística do município e reabre discussões sobre planejamento financeiro, qualidade da infraestrutura e equilíbrio entre investimento público e financiamento privado na realização de grandes eventos urbanos.