Escritor Edvan Cruz analisa por que ética e compliance começam pela liderança

Para o executivo e autor de Ser Líder é uma Arte, códigos, políticas e controles são fundamentais, mas é no comportamento cotidiano dos líderes que a cultura ética de uma organização realmente ganha forma.

Ética e compliance ganharam espaço definitivo na agenda das organizações. Códigos de conduta, canais de denúncia, políticas internas, treinamentos e mecanismos de controle tornaram-se elementos indispensáveis para empresas que desejam construir relações responsáveis e sustentáveis.

Mas existe uma questão que antecede todos esses instrumentos: como a liderança se comporta quando precisa tomar uma decisão difícil?

É relativamente simples defender valores quando tudo está funcionando bem. O verdadeiro teste acontece quando existe pressão por resultado, quando o prazo está comprometido, quando uma meta importante está em risco ou quando fazer a coisa certa significa escolher o caminho mais difícil.

É nesses momentos que a cultura deixa de ser aquilo que está escrito e passa a ser aquilo que é praticado.

Ao longo da minha trajetória profissional, aprendi que as pessoas observam atentamente o comportamento de seus líderes. Elas percebem quais atitudes são reconhecidas, quais comportamentos são corrigidos e, principalmente, aquilo que é tolerado.

Por isso, acredito que a cultura de uma organização também é definida pelo que a liderança tolera.

O resultado não pode justificar o caminho

Toda organização precisa de resultados. Empresas precisam ser competitivas, cumprir compromissos, gerar valor e alcançar seus objetivos. Não existe contradição entre alta performance e ética.

A questão está na forma como esses resultados são alcançados.

Imagine um profissional que entrega resultados extraordinários, supera constantemente suas metas e é considerado importante para o negócio. Ao mesmo tempo, seu comportamento viola princípios da organização.

O que deve pesar mais?

Essa talvez seja uma das situações mais difíceis para uma liderança. Quando comportamentos inadequados são relativizados porque alguém “entrega resultado”, uma mensagem silenciosa começa a circular pela organização: existem valores que podem ser negociados dependendo de quem está envolvido.

E cultura também é construída por essas mensagens silenciosas.

Resultados sustentáveis precisam ser alcançados através das pessoas e não apesar delas. Da mesma maneira, precisam ser alcançados respeitando os princípios que a organização afirma defender.

O líder precisa saber ouvir aquilo que não gostaria de ouvir

Existe outro aspecto fundamental quando falamos sobre ética e compliance: a capacidade de receber más notícias.

Todo líder diz que deseja transparência. Mas a verdadeira pergunta é: como ele reage quando alguém traz um problema?

Quando uma pessoa comunica um erro, aponta um risco ou questiona uma decisão e recebe como resposta constrangimento, irritação ou exposição, algo importante acontece.

Talvez aquela pessoa pense duas vezes antes de falar novamente.

E outras pessoas estarão observando.

Aos poucos, pode surgir uma organização em que os problemas continuam existindo, mas deixam de chegar à liderança.

Esse silêncio é perigoso.

Por isso, construir um ambiente ético também significa criar condições para que as pessoas possam levantar preocupações, fazer perguntas e comunicar desvios sem medo de retaliação.

Isso não elimina a responsabilidade individual. Pelo contrário. Responsabilidade e abertura precisam caminhar juntas.

Compliance estabelece limites. Ética orienta escolhas.

Compliance e ética estão profundamente relacionados, mas não são exatamente a mesma coisa.

As políticas, normas, controles e procedimentos ajudam a estabelecer limites claros para nossas ações. Eles são indispensáveis.

Entretanto, nenhuma organização conseguirá criar uma regra específica para cada decisão que um profissional precisará tomar ao longo da carreira.

Em algum momento, estaremos diante de situações em que a pergunta não será apenas:

“Isso é permitido?”

Precisaremos também perguntar:

“Isso é correto?”

É nesse espaço que princípios, valores e julgamento ético se tornam fundamentais.

A integridade se revela especialmente quando existe oportunidade de escolher um caminho mais fácil, quando há pouca supervisão ou quando ninguém parece estar olhando.

A liderança transforma princípios em cultura

Podemos investir nos melhores sistemas de controle. Podemos desenvolver políticas robustas. Podemos realizar treinamentos todos os anos.

Tudo isso é necessário.

Mas existe um componente que nenhuma política consegue substituir: o exemplo da liderança.

Quando um líder admite um erro, respeita os processos mesmo sob pressão, trata as pessoas com dignidade, aceita ser questionado e toma decisões coerentes com os valores que defende, ele está ensinando.

Mesmo sem perceber, líderes ensinam todos os dias.

Ensinamos pelo que fazemos.

Ensinamos pelo que reconhecemos.

Ensinamos pelo que corrigimos.

E também ensinamos pelo que toleramos.

Por isso, ética e compliance não podem ser vistos apenas como responsabilidade de uma área específica da empresa. São responsabilidades compartilhadas, e a liderança possui um papel determinante na construção desse ambiente.

No final, talvez a pergunta mais importante para qualquer líder não seja apenas “quais são os valores da minha organização?”

Existe uma pergunta ainda mais pessoal:

“As minhas decisões demonstram esses valores quando fazer isso tem um custo?”

Porque é justamente nos momentos difíceis que os valores deixam de ser palavras escritas na parede e passam a representar aquilo em que realmente acreditamos.

Edvan Cruz

Executivo e escritor, autor do livro Ser Líder é uma Arte.

Instagram: @ed.van.cruz

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