Por
MAX KATSURAGAWA NEUMANN
Há alguns dias, escrevi sobre uma floresta que, mesmo enquanto era desmatada, continuava a votar no machado porque seu cabo era feito de madeira. Hoje, porém, a floresta não escolheu o machado. Escolheu a vida.
É fácil confundir as duas coisas quando observamos a escolha de fora. Para quem vê apenas a lâmina, parece evidente que a floresta votou contra si mesma. Parece ter abraçado livremente aquilo que pode destruí-la facilmente. Mas essa conclusão parte de uma premissa perigosa: a de que nós sabemos, melhor do que a própria floresta, o que significa sobreviver.
Talvez seja exatamente aí que tantas análises sobre a vontade popular fracassem. Olhamos para uma escolha coletiva, identificamos seus riscos e imediatamente concluímos que aqueles que a fizeram foram enganados, manipulados ou simplesmente não compreenderam aquilo que estava diante deles. É uma explicação confortável, porém um pouco rasa. Afinal, se o outro escolheu aquilo que considero inconcebível, basta concluir que não enxergou tão bem quanto eu, certo?
Mas e se enxergou?
E se viu a lâmina?
E se soube exatamente que ela cortava?
Talvez o erro aqui esteja em imaginar que a floresta comparou o machado com a ausência dele. Raramente, porém, é essa a escolha que se apresenta. A floresta compara aquilo que tem diante de si com aquilo que já conhece. Compara o risco do desconhecido com a certeza do presente. E chega um momento em que permanecer parada também passa a parecer uma forma de morrer. Nesse instante, aquilo que para uns representa destruição pode, para outros, representar ruptura. O que parece imprudência para quem ainda encontra abrigo entre as árvores pode parecer sobrevivência para quem já não encontra sombra alguma.
Isso não significa que o machado tenha deixado de ser machado. A lâmina continua existindo. Os riscos continuam reais. A escolha popular não possui o poder mágico de transformar perigo em segurança apenas porque foi feita pela maioria. Mas talvez tampouco caiba ao observador transformar sua própria percepção em verdade absoluta e concluir que milhões escolheram morrer simplesmente porque escolheram diferente dele.
Há uma arrogância silenciosa em acreditar que o povo só é racional quando chega à conclusão que esperávamos dele. Talvez a democracia exija algo mais difícil. Não apenas aceitar que o outro possui o direito de escolher, mas admitir a possibilidade de que existam razões para sua escolha que nossas próprias certezas nos impedem de enxergar. Foi por isso que a floresta olhou para o machado e viu algo que muitos de nós não vimos. Não porque desconhecesse necessariamente a lâmina. Não porque tivesse esquecido que era feita de árvores. Não porque desejasse desaparecer. Talvez porque estivesse cansada de morrer lentamente. Talvez porque aquilo que lhe diziam ser proteção já não lhe parecesse proteger coisa alguma. Talvez porque, entre a certeza de continuar como estava e o risco de tentar algo diferente, tenha decidido correr o risco.
O tempo dirá se estava certa. Afinal, escolher viver não garante que aquilo que escolhemos nos salvará. Pessoas, povos e nações podem procurar a própria sobrevivência e ainda assim errar o caminho. Essa é uma possibilidade que nenhuma eleição consegue eliminar. Mas existe uma diferença profunda entre escolher aquilo que poderá nos destruir e escolher aquilo que acreditamos poder nos salvar. De fora, ambas as escolhas podem parecer idênticas. Para a floresta, não eram. A floresta não escolheu morrer. Escolheu arriscar-se a viver.