O Psicólogo Paulo Zago Neto, mais conhecido como Neto Zago explica que “Cuidar de um ente querido é um ato de amor — mas também pode ser um caminho silencioso para a ansiedade e o esgotamento emocional”. Nesta reportagem, ele explica por que isso acontece, quais são os sinais de alerta, e como buscar ajuda sem sentir culpa por “deixar alguém de lado”.
Cuidar de alguém que se ama é, para muitos, um gesto natural, quase instintivo. Pais cuidam de filhos, companheiros se apoiam mutuamente, famílias se unem diante da doença, da depressão, do luto ou de crises emocionais. No entanto, por trás desse cuidado amoroso e aparentemente nobre, existe um sofrimento silencioso que raramente recebe atenção: a ansiedade e o adoecimento emocional de quem cuida.
Em consultórios psicológicos, hospitais e até dentro das próprias casas, cresce o número de pessoas que, sem perceber, estão adoecendo não pela própria dor, mas pela dor de quem amam. São mães que não dormem mais porque o filho sofre, companheiros que vivem em constante estado de alerta por medo de perder o outro, filhos que se sentem responsáveis pela saúde emocional dos pais. O resultado, muitas vezes, é um quadro de ansiedade persistente, exaustão emocional e perda de qualidade de vida.
Segundo o psicólogo e palestrante Neto Zago, esse tipo de ansiedade não surge do nada. Ela não é uma causa, mas sim um efeito. Um sinal de que algo ultrapassou um limite emocional saudável.
“A ansiedade nunca é uma causa, ela é sempre um efeito. Existem muitos fatores que provocam a ansiedade, mas três são fundamentais: medo, insegurança e preocupação. Quando esses sentimentos se intensificam diante do sofrimento de um filho, de um parceiro ou de alguém muito próximo, o risco de adoecimento emocional cresce de forma significativa”, explica.
O medo de que algo pior aconteça, a insegurança diante do futuro e a preocupação constante passam a ocupar todo o espaço emocional do cuidador. Aos poucos, a vida gira em torno do problema do outro. E, quando isso acontece sem limites, a pessoa deixa de viver a própria vida para viver apenas a dor alheia.
Neto destaca que é natural e humano se sentir afetado pelo sofrimento de quem se ama. Isso faz parte dos vínculos afetivos. O problema surge quando esse impacto deixa de ser proporcional e passa a ser dominante.
“Quando o sofrimento do outro começa a roubar a minha paz de forma absurda, fora do normal, fora do contexto, aí já estamos diante de algo prejudicial. Quando eu deixo de olhar para mim, quando não apenas me importo, mas permito que o estado emocional do outro determine o meu estado emocional, isso pode desencadear ansiedade”, afirma.
Essa linha é extremamente delicada. Muitas pessoas acreditam que, se não sofrerem junto, estarão sendo frias, egoístas ou negligentes. No entanto, sofrer junto não significa sofrer igual. Empatia não é absorção da dor do outro.
O grande desafio está em estabelecer um limite emocional saudável, algo que, segundo o psicólogo, é difícil, mas absolutamente necessário. “As pessoas que amamos vão passar por problemas, dificuldades e crises. Isso é inevitável. O quanto isso vai afetar a nossa vida, no entanto, é uma decisão nossa. Se vamos ser tomados pelo medo, pela preocupação e pela insegurança, que são as bases da ansiedade, ou se vamos lidar com isso de forma equilibrada, é algo que precisa ser conscientemente trabalhado.”
Na prática, muitos cuidadores não percebem quando ultrapassam esse limite. Os sinais aparecem de forma silenciosa e progressiva. A pessoa começa a abrir mão de pequenos prazeres, depois de atividades importantes, até que a própria vida fica paralisada.
“Quando o sofrimento do outro começa a interferir diretamente na minha vida, esse é um sinal muito negativo. Quando eu deixo de sair, de viajar, de me divertir, de viver momentos importantes porque sinto que não tenho esse direito enquanto o outro sofre, isso indica que a preocupação saudável se transformou em ansiedade prejudicial”, explica Neto.
Ele exemplifica situações comuns: alguém deixa de sair para passear porque o filho está triste, cancela uma viagem porque um parente está doente, evita um momento de intimidade com o parceiro porque sente culpa por sentir prazer enquanto alguém próximo sofre. A vida vai sendo colocada de lado indefinidamente.
“O problema do outro passa a gerar um problema na minha vida. Uma coisa é eu ajudar o outro a resolver o problema dele. Outra coisa completamente diferente é o problema dele se tornar o meu problema”, afirma.
O próprio Neto usa sua experiência profissional para ilustrar essa diferença. “Como psicólogo, eu ajudo meus pacientes a resolverem os problemas deles. Mas se os problemas da vida deles se transformassem em problemas para mim, eu não conseguiria exercer minha profissão. Eu sou remunerado para ajudar o paciente a resolver o problema dele, não para carregar o problema junto com ele.”
Essa lógica, embora clara no campo profissional, costuma se perder nos vínculos afetivos. Pais, mães, companheiros e familiares frequentemente confundem amor com autoanulação. E o custo disso pode ser alto.
Estudos científicos apontam que o estresse emocional intenso vivido por cuidadores pode ter consequências graves para a saúde física e mental. Pesquisas publicadas em revistas médicas internacionais, como o Journal of the American Medical Association (JAMA), indicam que cuidadores que relatam altos níveis de estresse emocional apresentam risco significativamente maior de mortalidade quando comparados a pessoas que não exercem esse papel.
Um estudo amplamente citado revelou que cuidadores sob forte estresse emocional tiveram um risco de mortalidade até 63% maior, especialmente em contextos de cuidado prolongado, ausência de apoio e negligência do autocuidado. Esses dados chamaram a atenção da comunidade científica para um fenômeno alarmante: em alguns casos, o cuidador adoece mais rápido do que a própria pessoa cuidada.
Esse impacto está relacionado a fatores como estresse crônico, privação de sono, alterações hormonais, enfraquecimento do sistema imunológico, aumento do risco cardiovascular e maior propensão a quadros de ansiedade e depressão. Além disso, a constante vigilância emocional impede o descanso psíquico, mantendo o organismo em estado permanente de alerta.
Diante disso, Neto reforça a importância de buscar ajuda profissional. “Existe um dado científico muito importante que mostra que, muitas vezes, cuidadores morrem mais cedo do que as pessoas que estão sendo cuidadas. Isso é alarmante e precisa ser levado a sério.”
Buscar ajuda, no entanto, ainda é visto por muitos como sinal de fraqueza ou egoísmo. Nada poderia estar mais distante da verdade. Para o psicólogo, cuidar da própria saúde emocional é uma condição essencial para continuar cuidando do outro de forma saudável.
Um ponto central desse processo é a separação emocional entre as pessoas. “Eu sou uma pessoa, meu filho é outra. Eu sou uma pessoa, minha mãe é outra. O sofrimento do outro não é o meu sofrimento. Eu posso auxiliar, apoiar, cuidar, mas preciso entender que é o problema dele, não meu.”
Essa separação não diminui o amor, nem a responsabilidade afetiva. Pelo contrário: ela protege o vínculo de se transformar em uma relação de dependência emocional adoecida.
Outro aspecto importante é reconhecer a autonomia do outro, especialmente quando se trata de adultos. “O outro é um adulto e, como adulto, ele dá conta de resolver os próprios problemas quando ele quiser e quando achar que precisa. Nós podemos apoiar, orientar, incentivar, mas não viver a vida por ele.”
Muitos cuidadores adoecem porque assumem para si uma responsabilidade que não lhes pertence. Tentam controlar, resolver, antecipar dores e evitar sofrimentos que fazem parte do processo de amadurecimento e enfrentamento do outro.
Nesse contexto, estabelecer limites emocionais não é abandonar. É respeitar. “Você viver a sua vida, cuidar da sua vida, não é abandonar o outro. O outro tem a própria vida. Se ele morrer hoje, a sua vida continua. Isso não é frieza, é realidade. Vocês não são a mesma pessoa.”
Esse entendimento ajuda a aliviar a culpa que aprisiona tantos cuidadores e familiares. Culpa por descansar, culpa por sorrir, culpa por seguir em frente enquanto o outro ainda luta.
Além da terapia, Neto recomenda investimentos constantes na saúde emocional: leitura de bons livros, atividades físicas, momentos de lazer, espiritualidade, fortalecimento de vínculos sociais e construção de uma rede de apoio. Cuidar de quem cuida é um desafio coletivo, que envolve família, sociedade e políticas públicas.
No Brasil, o papel do cuidador ainda é pouco reconhecido e frequentemente invisível. Muitos exercem essa função sem preparo, suporte ou orientação, acumulando responsabilidades emocionais que ultrapassam seus limites psíquicos. Por isso, falar sobre esse tema é urgente. Mãe, pai, cônjuges, filhos, possuem amor fraternal mas competência para cuidar de pessoas com problemas de saúde é outra questão, é preciso de profissionais aptos para isso.
A ansiedade silenciosa de quem cuida não aparece de repente. Ela se instala aos poucos, disfarçada de amor excessivo, responsabilidade extrema e medo constante de perder. Reconhecer seus sinais é o primeiro passo para interromper esse ciclo e preservar não apenas a saúde de quem cuida, mas a qualidade das relações familiares.
Cuidar não pode significar adoecer. Amar não pode significar desaparecer de si mesmo. O equilíbrio entre empatia e autocuidado não é egoísmo — é sobrevivência emocional. Essa distância, saudável, também causa impacto no tratamento da pessoa afetada de forma positiva.
Contato profissional
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