A escritora Ádyla Maciel convida o leitor a atravessar um território onde as palavras criam conexões inesperadas entre culturas. O livro parte da curiosidade linguística para construir uma experiência poética e intercultural, na qual o som aproxima, mas o significado revela mundos paralelos.
A obra se estrutura a partir de palavras que, embora tenham o mesmo som no português e no japonês, carregam sentidos completamente distintos em cada idioma. Esse jogo sonoro e semântico constitui o eixo central do livro e funciona como metáfora dos processos de comunicação intercultural, nos quais a familiaridade aparente pode ocultar diferenças profundas de sentido.
A palavra rei, por exemplo, no Brasil está associada à ideia de soberania; no Japão, remete ao gesto de reverência e respeito. Som, que em português designa o ruído, no japonês se relaciona à estrutura sonora da língua. Lua, fortemente ligada ao imaginário ocidental, aparece como um som deslocado, um nome que não carrega o mesmo céu. Sol, que aqui representa luz e calor, em outro contexto pode significar alma. O mar, símbolo de vastidão, transforma-se em círculo, em completude. O rio, que no Brasil é fluxo de água, pode se tornar dragão, força ancestral. Manga deixa de ser fruta ou parte da roupa para se tornar narrativa ilustrada. Kirá, que pode soar como nome próprio, passa a significar brilho. E casa, lugar de permanência e afeto, converte-se em abrigo provisório, algo que se abre apenas quando chove.

Ao apresentar esses exemplos, o livro não se propõe a traduzir palavras, mas a evidenciar como a linguagem organiza modos de pensar, sentir e se relacionar com o mundo. A pergunta que dá título à obra ” E se eu tivesse nascido no Japão? ” não é geográfica, mas epistemológica: sugere que outras línguas produzem outras formas de experiência.
Com escrita delicada e rigor conceitual, Ádyla Maciel constrói uma poética do entre-lugar, onde a interculturalidade se manifesta não como fusão, mas como convivência de sentidos. O livro se dirige ao leitor adulto que reconhece que compreender o outro é aceitar que, mesmo quando o som é o mesmo, o significado nunca é idêntico