Primeiro lançamento da Laurentino Editorial na Paraíba reúne literatura, música, memória e o compromisso de ampliar os espaços destinados à criação artística.
Há livros que chegam ao mundo trazendo mais do que palavras. Carregam experiências, memórias e a possibilidade de fazer vozes alcançarem os espaços que merecem ocupar. É nesse encontro entre literatura e reconhecimento que a escritora, cantora, compositora e educadora Adília Uchôa apresenta Bazar das Ilusões nesta sexta-feira, 16 de outubro, às 19h30, no Museu de Arte Popular da Paraíba, em Campina Grande.
Publicado pela Laurentino Editorial, o livro marca o primeiro lançamento da editora em território paraibano, depois de eventos realizados em outros estados. A ocasião reúne histórias e pertencimentos: à frente da casa editorial está Cibele Laurentino, nascida em Campina Grande e filha do poeta popular Zé Laurentino, cuja trajetória também se entrelaça à memória cultural da cidade.
Quando o cotidiano encontra a poesia
Em Bazar das Ilusões, Adília transforma objetos, lembranças e acontecimentos comuns em matéria poética. Vestidos bordados, chapéus, sapatos, fitas, partituras e livros deixam suas funções habituais para assumir novas existências através da palavra.
O bazar que nomeia a obra representa também as experiências humanas, os afetos acumulados, as ilusões alimentadas e aquilo que precisamos reconhecer, preservar ou abandonar. Seus versos interrogam a existência, acolhem contradições e encontram beleza nas experiências singelas.
A musicalidade atravessa os poemas. Rimas, ritmos e sonoridades revelam uma autora que compreende a força expressiva da palavra escrita e sua capacidade de emocionar quando ganha voz. Essa intimidade com a música acompanha sua história.
Uma artista de muitas linguagens
Cantora e compositora, Adília participa da cena musical de Campina Grande desde a década de 1970, quando começou a cantar em casas, praças e escolas. Em 2021, lançou o EP A Cor da Voz, disponibilizado nas plataformas digitais.
Sua atuação também encontra na educação um território de criação e transformação. Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual da Paraíba e mestre em Formação do Professor pela mesma instituição, desenvolveu pesquisas sobre letramento literário e inserção da leitura e da escrita por meio do texto lírico na Educação Infantil.
O trabalho com professoras da rede municipal de Campina Grande revela uma artista atenta às singularidades da infância e às diferentes formas de aprender e perceber o mundo.
“Adília é uma dessas mulheres cuja grandeza não cabe em uma única apresentação. Sua poesia está na escrita, na música, na interpretação e na maneira como ensina. Existe uma humanidade muito bonita em tudo o que ela faz. Publicá-la é contribuir para que sua arte alcance novos leitores e ocupe os espaços que merece”, destaca Cibele Laurentino.
Campina Grande, memória e pertencimento
Para Cibele, o lançamento tem uma dimensão afetiva que ultrapassa o exercício profissional. A escritora retorna à cidade natal para realizar o primeiro lançamento paraibano de sua editora em um espaço ligado à memória de seu pai.
O Museu de Arte Popular da Paraíba, dedicado à valorização das manifestações culturais nordestinas, integra lembranças de uma família cuja história foi construída em torno da palavra e da arte popular. Zé Laurentino encontrou ali oportunidades de compartilhar sua poesia com o público.
Agora, a filha retorna não apenas como escritora, mas como responsável por uma editora empenhada em abrir caminhos para outros autores.
“É profundamente emocionante voltar à cidade onde nasci e realizar um lançamento no espaço que guarda lembranças da trajetória do meu pai. Cresci compreendendo o valor da palavra como expressão da nossa existência. Hoje sinto que dou continuidade a uma história, mas também escrevo novos capítulos, abrindo caminhos para outras vozes”, afirma.
A escolha do museu aproxima gerações e estabelece um diálogo entre a tradição da poesia popular e projetos literários contemporâneos. O passado não aparece como simples recordação: participa da construção de novos encontros.
Uma editora comprometida com a circulação das obras
A publicação traduz um princípio da Laurentino Editorial: o valor de um livro não deve ser medido exclusivamente pelo potencial comercial, pelo reconhecimento prévio de quem o escreveu ou pelas tendências passageiras do mercado.
Em um cenário no qual muitos escritores enfrentam dificuldades para publicar e conquistar leitores, a editora defende oportunidades para diferentes repertórios e expressões literárias. Atuando no segmento de autopublicação, desenvolve projetos que abrangem acompanhamento dos autores, preparação, produção editorial, identidade visual, publicação e divulgação.
Publicar, nessa perspectiva, não significa apenas transformar um original em objeto impresso. Significa cuidar da identidade da obra, de sua apresentação e dos caminhos que possibilitam o encontro com o público. A editora valoriza também artistas visuais na criação de capas, aproximando literatura e artes plásticas.
“Não acredito que a literatura deva ser privilégio de alguns nomes ou permanecer restrita aos espaços que o mercado já legitimou. Existem escritores extraordinários que ainda não alcançaram a visibilidade correspondente à grandeza de suas obras. Quando afirmamos que toda obra merece o seu lugar no mundo, falamos de responsabilidade editorial e respeito à criação literária”, ressalta Cibele.
A trajetória de Adília oferece uma expressão concreta desse compromisso. Sua dedicação à cultura, à música, à educação e à poesia atravessa décadas e demonstra que o reconhecimento artístico não pode depender apenas da exposição midiática ou da urgência das novidades.
Há artistas que formam leitores, inspiram gerações e transformam comunidades sem ocupar continuamente as vitrines do mercado. Dar visibilidade a essas trajetórias significa reconhecer uma parte essencial da riqueza cultural brasileira.
Uma celebração da palavra
O lançamento reunirá literatura, música e memória em um espaço representativo da cultura paraibana. A presença de Adília no museu aproxima as muitas dimensões de sua atuação: a mulher que canta, escreve, educa e transforma experiências em linguagem.
Para a Laurentino Editorial, a noite celebra também uma conquista enraizada na própria história de sua fundadora.
“Meu pai sempre acreditou na força da poesia. Sinto que essa crença continua presente em tudo o que construo. Voltar a Campina Grande para celebrar o livro de Adília é reconhecer que a literatura também é feita de encontros entre histórias, pessoas e lugares. Estamos celebrando uma mulher que dedicou sua vida à arte e reafirmando que a poesia precisa continuar encontrando espaços para existir”, conclui Cibele.
Entre os versos de Adília, a memória de Zé Laurentino e os caminhos abertos pela editora, o lançamento se anuncia como celebração da literatura em sua dimensão humana.
Um livro não nasce apenas para ocupar uma estante. Nasce para circular, provocar encontros, despertar lembranças e encontrar alguém que reconheça, em suas páginas, uma parte da própria existência.

Cibele Laurentino | Escritora e editora
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