Família: o lugar onde o amor também conhece suas feridas

 

Há uma fotografia de família em quase toda casa. Nela, as pessoas se aproximam, ajeitam o corpo, procuram a câmera e sorriem. O instante fica guardado. O que não cabe na moldura é justamente aquilo que torna uma família real: os afetos mal resolvidos, as palavras que atravessaram décadas, as pequenas cumplicidades, os ressentimentos antigos e aquele amor que, mesmo ferido, insiste em permanecer.

É nesse território que Francisco Almeida Prado situa Família, Amor e Ódio, obra que se volta para uma das instituições mais antigas e complexas da experiência humana. O autor parte dos laços de sangue e do casamento para observar o que acontece quando pessoas profundamente diferentes precisam dividir não apenas uma casa ou um sobrenome, mas a própria vida.

Pais e filhos, irmãos, marido e mulher compõem esse pequeno universo no qual convivem conflitos, risadas, traições, disputas, mágoas e lembranças. Não há, na proposta do livro, interesse em sustentar a imagem confortável da família como lugar exclusivamente destinado ao acolhimento. Há, antes, o reconhecimento de sua ambiguidade.

Amamos dentro da família antes mesmo de compreender exatamente o que significa amar. Também é ali que experimentamos rejeições, ciúmes, cobranças, preferências e ausências. Algumas dessas experiências desaparecem com o tempo; outras nos acompanham muito depois de deixarmos a casa onde crescemos.

Francisco Almeida Prado toca ainda numa questão particularmente incômoda: por que determinados vínculos resistem mesmo depois de tantas rupturas? O parentesco possui uma espécie de memória própria. Podemos nos afastar, discordar, passar anos sem pronunciar um nome, mas certas relações permanecem inscritas em nossa história. Romper a convivência nem sempre significa romper aquilo que ela deixou em nós.

Por isso, Família, Amor e Ódio ultrapassa a simples reunião de conflitos domésticos. Ao voltar o olhar para dentro das relações familiares, a obra provoca um movimento inevitável no leitor: reconhecer alguma coisa de si. Talvez um silêncio conhecido. Uma discussão repetida durante anos. Um afeto que nunca encontrou palavras. Ou aquela pessoa que conseguimos amar e contrariar com a mesma intensidade.

No fim, talvez as fotografias continuem sendo necessárias. Não porque revelem toda a verdade, mas porque preservam um instante dela.

O restante permanece fora da moldura.

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GAZETA SÃO PAULO