Em Abril alienado, Percio Lima revela a poesia como um processo de espera, escuta e transformação da palavra
Antes de um poema nascer, há um silêncio.
Há também uma inquietação, uma imagem que insiste, uma palavra que ainda não encontrou seu lugar. Há aquilo que o poeta observa enquanto o mundo parece seguir indiferente. E há o tempo esse elemento invisível que transforma a experiência em linguagem.
É desse lugar de espera que parece nascer Abril alienado, livro de poesia de Percio Lima.
Mais do que reunir poemas, a obra apresenta ao leitor uma reflexão sobre a própria construção da linguagem. Percio escreve como quem desmonta as palavras para descobrir o que existe dentro delas. Seu exercício poético não está apenas em dizer, mas em encontrar novas possibilidades para aquilo que já foi tantas vezes dito.
Essa busca aparece de maneira particularmente delicada no poema “Preparação”:
“O poema está secando no varal.
Não está pronto ainda.”
A imagem é simples, mas carrega uma concepção inteira de poesia. O poema não nasce acabado. Ele precisa do tempo, do vento, do sol. Precisa amadurecer antes de se entregar ao leitor.
E talvez essa seja uma das maiores provocações de Percio Lima: lembrar que também nós somos obras em processo.
Vivemos em uma sociedade que exige respostas rápidas, opiniões imediatas e conclusões definitivas. A poesia, porém, trabalha em outra velocidade. Ela não tem pressa de concluir. Permite a dúvida, a pausa, o intervalo.
Em Abril alienado, a palavra parece estar constantemente procurando seu estado mais verdadeiro. O poeta desconfia dos lugares-comuns e procura escapar das fórmulas prontas, como se soubesse que uma palavra repetida muitas vezes pode perder sua capacidade de espanto.
Por isso, seus versos não caminham necessariamente pela clareza. Caminham pela descoberta.
No mesmo poema, o autor escreve:
“Deixa primeiro o sol bater
com seu perfume
na palavra ainda
em estado monolúcido”
Há algo profundamente bonito nessa imagem. A palavra ainda está em processo. Não foi totalmente revelada. Precisa atravessar imagens, abandonar velhos caminhos e encontrar uma forma própria de existir.
É justamente aí que a poesia de Percio Lima se aproxima da experiência humana.
Também carregamos palavras que ainda não sabemos pronunciar. Sentimentos que permanecem em estado de espera. Memórias que precisam de tempo para deixar de doer e se transformar em alguma outra coisa.
Talvez escrever seja isso: encontrar uma forma para aquilo que ainda não tem forma.
E talvez ler seja participar desse nascimento.
Ao longo de Abril alienado, o leitor percebe que não está diante de uma poesia interessada em facilitar o caminho. A obra prefere provocar deslocamentos. Uma imagem interrompe o pensamento. Um verso permanece ecoando. Uma palavra, aparentemente comum, reaparece carregada de outra luz.
No final de “Preparação”, Percio Lima escreve:
“Pois a palavra,
quando despida,
é fruta nova,
preste ao poema.”
A palavra despida é aquela que perdeu suas máscaras. Já não está presa ao uso automático, ao sentido previsível, àquilo que todos esperam dela. Está novamente disponível para o espanto.
Abril alienado nos lembra que a poesia não precisa chegar a algum lugar. Às vezes, sua maior potência está justamente no percurso. No que se transforma enquanto lemos. Naquilo que permanece sem nome, mas que, de algum modo, conseguimos sentir.
E há poemas que, como frutas amadurecendo ao sol, precisam apenas de tempo para revelar o sabor que sempre esteve escondido dentro deles.

Sobre o autor:
Percio Lima, bragantino de nascimento, iniciou seu trabalho em poesia no projeto “Sete histórias para cantar” (2007), em coautoria com outros escritores.
Autor dos livros “Cartilha para o Ocaso” (2016), “Para recolher Auroras” (2018), “Errâncias” (2019),”Poemas e rimagens” (2021) e “Abril Alienado” ( 2026 ), continua em busca de simplicidade, beleza e metáforas em sua poesia.
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Acompanhe o autor: @lima.percio
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