Paula Pimentel reúne dezesseis anos de escrita em “Enquanto Somos

Entre poesia e prosa, autora dá forma aos silêncios da experiência humana e propõe uma leitura atenta aos afetos e às contradições da existência.

Dezesseis anos cabem em um livro, mas dificilmente atravessam suas páginas sem deixar marcas. Nesse intervalo, mudam as perguntas, os vínculos, a maneira de perceber o mundo. É desse percurso que nasce Enquanto Somos, de Paula Pimentel, uma reunião de poesias e prosas que têm na revelação dos silêncios íntimos seu ponto de partida.

A obra apresenta a escrita como espaço de criação e transformação. Afetos, questionamentos e reflexões compõem uma proposta que aproxima o pensamento da experiência sensível. O convite ao leitor é simples e exigente: parar, ver e sentir. Gestos que pedem disponibilidade para perceber o que acontece ao redor e reconhecer aquilo que se passa dentro de nós.

Há uma questão que merece atenção nesse encontro entre vida e literatura: o que acontece quando uma experiência pessoal se torna pública? Para Paula, publicar essas páginas significou reconhecer que os textos, embora nascidos de um caminho próprio, poderiam encontrar lugar na vida de outras pessoas. O livro se abre, assim, à participação de quem lê e leva para as palavras sua memória, suas dúvidas e seus afetos.

Como escritora, interessa-me especialmente esse instante em que o texto ganha uma existência além de quem o criou. Podemos escrever a partir de algo profundamente particular e alcançar alguém cuja história desconhecemos. O reconhecimento acontece numa frase, numa imagem, numa pergunta que permanece depois de a página ser virada. É uma das razões pelas quais a literatura continua a aproximar pessoas que nunca se encontraram.

O título Enquanto Somos permite pensar nessa condição passageira de existir. O “enquanto” carrega o tempo; o “somos” inclui o outro. Essa combinação dialoga com a proposta de reunir diferentes faces e contrastes humanos, admitindo que nossa identidade também se modifica com o que vivemos.

Ao compartilhar uma produção construída ao longo de dezesseis anos, Paula Pimentel oferece ao público um percurso de expressão e escuta. Sua obra convida a reservar atenção ao que costuma permanecer sem nome. E faz desse gesto uma possibilidade de encontro: alguém escreve a partir da própria vida; outra pessoa abre o livro e encontra palavras para olhar a sua.

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GAZETA SÃO PAULO