Hoje, o povo escolheu. Escolheu a arma, por mais que esteja na mira. Escolheu a fé, por mais que a cegue. Escolheu a lealdade sem limites, por mais que ela o prejudique.
Há um ditado popular, atribuído sem provas à Turquia, que conta que a floresta estava sendo desmatada, mas, mesmo assim, continuava a votar no machado, pois seu cabo era feito de madeira. É, de fato, uma parábola deveras interessante que, por razões que não cabe a mim explicar, passa despercebida por muitas “cabeças pensantes”. Chega a ser desolador, porém, quando nela se vê mais do que meras palavras: vê-se uma lição.
Democracias nascem, morrem, desaparecem. Mas há sempre ali um mesmo denominador: a própria democracia. O povo, afinal, exerce aqui um papel duplo. Por um lado, age como uma força movida pela esperança, buscando uma mudança que, às vezes, não passa de um sonho distante. Por outro, já desiludido com o progresso, olha para trás e, ao não enxergar nada que julgue produtivo, resolve que ali dará seu último suspiro. Há uma frase frequentemente atribuída a Albert Camus: “Devo me matar ou tomar uma xícara de café?” Pouco importa, aqui, se Camus realmente a disse. A ideia permanece. O ponto é sempre escolher a xícara. Escolher continuar. Escolher viver mais um dia para descobrir o que o próximo pode trazer. O povo, porém, às vezes escolhe diferente.
E esse talvez seja o grande paradoxo da democracia: ela confia ao povo não apenas o poder de construí-la, mas também o poder de destruí-la. Um voto, por mais que pareça uma escolha racional, não vem acompanhado de uma garantia de prudência. Se, aos olhos de um terceiro, o voto deixou de lado a racionalidade que nos foi dada, pouco importa para o processo democrático. O povo aqui é verdadeiramente soberano, queiram uns ou não. E é precisamente aqui que a história da floresta deixa de ser apenas uma anedota. O machado não invadiu a floresta, não quebrou seus portões nem tomou o poder à força, pois simplesmente não precisa; a floresta lhe estenderá a mão, pois vê no cabo uma espécie de pertencimento, por mais contraditório que seja. E talvez a floresta esteja, de fato, certa, até porque o cabo é de madeira. O erro, se houver um, está em achar que aquilo que se parece conosco agirá em nosso benefício.
Mas seria confortável demais culpar apenas a floresta. Quando as massas olham para algo que se materializa à sua frente e o rejeitam, há ali algo que precisa ser compreendido, e não rapidamente odiado. O voto não é somente o poder de escolha; pode ser protesto, raiva, ressentimento, esperança. Pode ser uma tentativa desesperada de romper com aquilo que já existe, mas que não lhe é mais útil. Portanto, não devemos nos perguntar simplesmente por que a floresta votou no machado, mas o que aconteceu com a floresta para que o machado lhe parecesse uma alternativa.
Talvez ali a democracia revele a sua fragilidade. Ela não sobrevive somente nas eleições, nas urnas e nas maiorias. Depende também da confiança de que amanhã haverá motivos para participar dela. Quando a desconfiança aparece, o eleitor não necessariamente abandona a democracia. Às vezes, faz algo muito mais antagônico: utiliza os próprios meios democráticos para manifestar a sua descrença neles. Por isso, a voz do povo não deve ser simplesmente romantizada ou desprezada. Ela deve ser ouvida — sobretudo quando diz algo que não queremos ouvir. Afinal, a floresta continua sendo floresta mesmo que escolha o machado. E o machado continua sendo machado, ainda que seu cabo seja de madeira.
Por:
Iuri Macedo Piovezan
Nota da redação: Este artigo expressa a opinião de seu autor, Iuri Macedo Piovezan, e não representa necessariamente a posição editorial deste jornal.